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 O caçadô de Vampiro

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AutorMensagem
herculano alencar
Amigo Prata
Amigo Prata


Data de inscrição : 16/07/2009
Localização : São Paulo

MensagemAssunto: O caçadô de Vampiro   Sab Out 10, 2009 11:04 pm


O caçadô de Vampiro
Herculano Alencar


Foi tiro e queda, seu moço!
Os três caroço de chumbo,
todos três no mesmo rumo,
foi se alojá no pescoço.
A onça soltô um trôço
e gruniu de agonia.
Pela luz que me alumia!
Já vi cabra bom de tiro,
mas iguá ao Valdomiro,
nem os rei da monarquia.


Inda me alembro do dia:
Foi no primeiro de abril,
já quais nos ano dois mil,
lá do sertão da Bahia
-num alembro se chovia-
que o caçadô, Valdomiro,
o cabra a que me refiro,
partiu pro sul africano,
com seu matulão de pano,
caçá um bicho vampiro.


Num soltô um só suspiro
na hora das despedida.
Calçô as bota comprida,
as calça de casimiro
e partiu pro seu retiro:
Polvorinho na cintura,
carne seca, rapadura,
farinha d'agua, pimenta...
cabelo entupindo as venta:
A sua maió fartura!


Quem oiasse a criatura,
era de tê pesadêlo,
arrepiá todo os pêlo
inté senti a gastura
de vê tamanha brabura
pindurada no espinhaço.
Sem dá mostra de cançaso,
sem um pingo de pavô,
Valdomiro, o caçadô,
nunca foi de tê cagaço.


Lá se foi, marcando passo,
cuma quem tá no quartel,
se aprumando no chapéu,
feito de papel almaço.
Se foi... o home de aço,
o nosso herói nordestino,
galopando, sol à pino,
em riba dum pangaré,
que niguém punhava fé,
fosse chegá no destino.


Deu um cheiro nos menino
e um arrocho na muié:
—Inté quande Deus quisé,
pelas graça do Divino;
Lembrança pro Zeferino,
pro Zé Ferro, pro Valdez,
pro capitão, pro turquês,
pras muié do Ateneu.
Tobém fica o meu adeus
pros amigo português.


Adispois de quase um mês,
já em terra africana,
bebeu dois litro de cana
quase tudo de uma vez.
Sem senti a embriaguez,
mode manter os sentido
e ascutá os ruído
das fera mais assasina,
deu início na rotina
e aguçô os ouvido.


Tirô, de couro curtido,
uma tirinha de sola
que dava nó na sacola
onde guardava escondido,
-herança dum falecido-
a munição empregada,
devidamente arrumada
nas caçada de espera
e a lazarina amarela
de coronha envernizada.


Deu-se início a caçada!
Só ele e sua corage
naquela mata selvage
atrás da fera encantada.
Vertia sangue a malvada,
era só o que sabia.
Mode ninguém conhecia,
que até falá dava mêdo.
O nome era um segrêdo
que o matagal escondia.


A primera valentia
veio logo e sem demora,
quande no nascê da aurora
uma medrosa cotia,
de assutada, corria
de uma vara de queixada.
Lazarina carregada
cuspiu pra tudo que é lado
e no lugá foi deixado
cinquenta tripa furada.


E a cotia, coitada!
De tanto agradecida
se ofereceu de comida,
sendo, é claro, injeitada.
Hoje ela tá vacinada
num zoológico da cidade,
provando a veracidade
deste fato acontecido.
Tivesse, a bicha, morrido,
iam chamá de covarde.


Dispois, um pouco mais tarde,
outra prova de bravura:
Um leão de meia altura
quis amostrá sua arte.
Ele, prevendo o desastre,
engoliu quatro caroço,
botô as mão no pescoço
e o cu no rumo do vento...
Ajustou o pensamento
pelo o tamanho do trôço


e arremeçô, sem esforço,
um peido tão fedorento
que o bicho lazarento,
que já num era tão moço,
ficou que nem carne e osso,
as banha se derreteu.
E tudo o que ele cumeu
nos longos ano de vida,
é uma estauta escupida,
que hoje enfeita o museu.


Outro dia amanheceu
pro valente caçadô!
O dia de mais calô,
dispois que o leão morreu.
Antes ele do que eu,
cuma se diz no ditado.
—Descanse em paz o coitado!
Matutava Valdomiro.
Dispois dum breve suspiro,
quande avistou um viado.


—"Tava tiquin assustado,
Como quem tivesse afim...
Oiô de longe pra mim,
cum jeito desconfiado;
ensaiô um rebolado
e fugiu em disparada,
mantendo a calda arriada
protegendo o orifício,
que, por obra de ofício,
deixou as pata cagada".


Atrás dele uma manada
de bicho rinoceronte,
cada um o mais gigante
c'as boca escancarada,
parecendo dá risada,
niguém sabe lá do quê;
Danou-se os pé a corrê
no rumo de valdomiro.
Só precisô dá um tiro
e oiá os bicho morrê.


Fizero por merecê
o chumbo do caçadô,
que ainda fez o favô
de num botá pra sofrê.
Eu digo a vocimicê,
que em outra ocasião,
talvez capasse os cunhão
antes da morte chegá,
pra enfiá no lugá,
donde escapa a digestão.


Agora... muita atenção!
Chegô a hora esperada...
Valdomiro e a caçada
sozinhos na escuridão...
As tripa de prontidão,
roncava que nem cuíca,
o cu assoprando a pica
com as reserva pum,
o gaz de seu dejejum:
Batata doce e canjica.


E foi tanta pulitrica
na espera do vampiro,
que, só mesmo Valdomiro,
cuma a estória publica,
pôde assiná a rubrica
pra dá autenticidade,
pois qualqué otoridade
que saiba hematofilia,
aceita, por serventia,
que tudo isso é verdade.


No céu, uma claridade!
É noite de lua cheia!
Vampiro esperando a seia...
E, ele, oportunidade...
Tinha um cheiro de maldade
espalhado pelo vento,
que a emoção do momento
parecia num tê fim
e até os mói de capim
serviam de documento.


Apareceu o sangrento!
Um estranho animal,
de boca na vertical
exibindo o seu talento.
No primeiro movimento,
Valdomiro, dominado,
jogô as arma de lado
e os dote de caçadô.
Seja esse bicho o que fô:
O caçadô foi caçado!
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herculano alencar
Amigo Prata
Amigo Prata


Data de inscrição : 16/07/2009
Localização : São Paulo

MensagemAssunto: Re: O caçadô de Vampiro   Sex Jan 08, 2010 10:22 pm

Abraço fraternal Elamer,
Herculano
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O caçadô de Vampiro
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