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 A gueixa dos olhos de mar

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AutorMensagem
Marco Hruschka
Amigo Bronze
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Data de inscrição : 28/05/2010
Localização : Maringá

MensagemAssunto: A gueixa dos olhos de mar   Qui Jun 10, 2010 8:26 am

Lá fora, só por olhar a paisagem e contemplá-la, ninguém saberia nos dizer qual é a estação na qual nos encontramos. Parece outono, mas os frutos já não dão mais como antes. Primavera seria se tivéssemos os ipês a colorir as ruas. Verão e inverno temo-los num mesmo dia. Amarelo e cinza são as cores que, habitualmente, revezam-se nos sobre-tons que pintam o quadro diurno da cidade. Pela noite, tudo parece breu.
Estavam, ou melhor, estávamos, pois eu, como narrador onisciente e onipresente, encontro-me sempre num ângulo privilegiado para narrar a história e participar ou influenciar-lhe quando bem entender, pois bem, estávamos num bar. Alguns chamariam de boate, pode ser, depende dos olhos de quem analisa, ou apenas vê, não nos prenderemos a isso. Sabe-se que há um balcão de mármore negro, bebidas de todos os tipos na parede, são prateleiras e fileiras de destilados e fermentados, teor alcoólico para todos os paladares. Deste ângulo, nota-se uma bela garrafa de absinto, de cor verde, além de uma outra de tequila, uma de vodka, vinhos de todos os lugares do mundo, atualmente os japoneses são os mais populares, agora eles têm mais território para plantar e para viver, os do Porto têm aparência atraente, mas ainda prefiro o suave de Bordeaux. Há uns recipientes estranhos que comportam bebidas de cores diferenciadas, que brilham. Do lado de lá do balcão, belas garotas, claro está, neste caso a minha preferência como voga, trabalham a servir a clientela, toda ela do sexo feminino, digo-lhes desde já. Mas todas as raças se misturam, há fêmeas para todos os gostos. Poltronas, sofás e bancos, em sua maioria de couro, acreditamos que por motivos afrodisíacos e não de limpeza... - bom, de limpeza também -, encontram-se espalhados pelos cantos do espaço, formatado geometricamente, lembrando um labirinto de salas. A música que embala a dança é algo irreconhecível aos ouvidos comuns, notas semi-inexistentes aliadas a uma harmonia surreal; trata-se de um som entorpecente, narcótico e inebriante, talvez já tenhamos a explicação para o fato de que todas elas se movimentam como quem sonha estar a nadar, umas como a fugir de uma presa aquática, outras a acasalarem-se num aquário de transparências.
Não há muitas pessoas. Parece-nos uma festa privada. Há o suficiente para que façam sexo umas com as outras sem enjoarem-se, entretanto, elas já não precisam mais disso se não quiserem, as bebidas e as danças já lhes proporcionam orgasmos múltiplos e ininterruptos. Precisamos de um novo Darwin para registrar a nova evolução da espécie.
E lá vem ela, saída não se sabe de onde, vestida de um preto quase transparente, roupas sem corte, estilosamente rasgadas, apenas com algumas aberturas estratégicas. Usa uma bota igualmente negra, cano alto, até os joelhos, salto fino, que faz com que ela pareça ainda mais soberana. Seus olhos são mares orientais, cabelos negros e compridos, lisos e inebriantes. Magra em suas curvas e formosura. Anda a passos firmes e leves em direção ao que deseja, observando fixamente o ponto-alvo, como uma leoa que aguarda o momento certo de atacar a sua presa. A mulher que será abordada em alguns instantes não sabe, mas o perfume da Senhora a inebriará e elas se tornarão amantes nesta noite.
Não há mais homens por aqui. Nem aqui dentro, nem lá fora, em lugar algum. O feminino impera por completo, como outrora dominava sem darmos conta, a única diferença está na exclusividade da presença. Elas têm sêmen de qualidade armazenado em segurança pelo tempo que quiserem manter-se somente mulheres. Se optarem pelo masculino, o que não nos parece provável neste momento, abrirão a caixa de cor branca, com a permissão da Senhora, claro está, pois é ela quem detém o poder por aqui, bem como as senhas e as chaves. Caso contrário, continuarão a se reproduzir com o conteúdo da caixa negra. Devem estar se perguntando o porquê da escolha das cores, sinto muito, eu também não sei.
Enfim, as duas jovens estão num cômodo especial agora, único, ímpar, o quarto da Senhora. Essa mestiça, uma semi-oriental, de olhos verdes e pele indiana tem o costume de escolher uma parceira quando lhe apetece. Normalmente ela permanece sozinha, organizando e planejando tudo, pois tudo o que se pode ver até a linha do horizonte lhe pertence. A decoração do ambiente é encantadora. Há espelhos em locais inesperados, cores planando suavemente, exalando odores extasiantes. Ouve-se o barulho de água em algum lugar, parece uma mini-cachoeira. Talvez esteja no toilette ao lado. O clima é fresco e aconchegante agora. É deveras um aposento no qual se deseja estar. A moça que já está despida sorri por ter sido a escolhida. Ela realizará o sonho que é também o de todas as damas que estão lá fora, pois a Senhora é o deleite maioral. Tomam uma bebida especial, saborosa, relaxante, mas que só fará efeito daqui há algumas horas.
Elas já se amam, usufruem-se reciprocamente, parece que se tocam sem tocar-se. São duas plumas, são duas partes encaixadas de um quebra-cabeça. São o pecado que já não existe mais. São o prazer. São tudo que um corpo pode desejar. São-se e só.
Ao raiar, a Senhora já estará sozinha. Ninguém lembrará do ocorrido. A escolhida não mais a será e não saberá nunca que a foi, dará vez a outra felizarda, podendo ser ela mesma, se tiver sorte. A Senhora continuará com seus afazeres, bem mais relaxada, obviamente, e esperará os sinais do corpo para realizar mais uma vez esse ritual sacro-profano de delícia e esquecimento.
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